Masada

2018-04-17 0 Por Rui Valente
Masada

Chego à fronteira entre a Jordânia e Israel bem cedo: Wadi Araba, entre Aqaba e Eilat, bem no sul de ambos os países. Estou um bocado preocupado porque tenho um aspecto imundo: barba de quase uma semana, roupas sujas e cheias de pó, e o cheiro… Enfim, o aspecto que é de esperar para quem acaba de dormir uma noite no meio do deserto, depois de um dia inteiro a vaguear por ele e realizar uma escalada ao sol a meio da tarde e não encontrou ainda um chuveiro.

É a minha primeira passagem por uma fronteira terrestre entre dois países de situação tensa. E mal as seguraças israelitas me põem os olhos em cima, afastam-me logo do grupo dos turistas respeitáveis e começam a fazer-me perguntas.

Nome? Nome do pai? Mas isso não vem no passaporte… Profissão? Isso também não… Onde vivo? Onde fica isso?? Nome do pai (outra vez??) Hotel? Como vou sair de Israel? Profissão? Nome do pai? Onde vivo? Etc etc etc

Liberto-me a custo das formalidades da fronteira e depois vou até Eilat. Quero apanhar o autocarro para Masada, a caminho de Jerusalém.

Na estação várias coisas me chamam a atenção. Uma é a quantidade de mulheres que há na rua. E com pouca roupa, pois afinal está muito calor e Eilat é uma cidade à beira-mar. Depois de uma Jordânia tão masculina, em que os homens dominam a vida pública, e as mulheres estão tapadas até ao pescoço, chega a ser surpreendente: voltei a um país ocidental.

Depois a quantidade de soldados que vejo. E as armas por todo o lado! Pistolas, espingardas de assalto. Na estação dos autocarros deve haver mais armas que num quartel em Portugal!

E depois, a televisão está a passar um estranho filme. É a biografia de um soldado. Mostra o casamento dos pais. Depois fotos dele em bébé. Depois mais crescido. Videos caseiros. Ele na escola. A entrada para o exército. Ele e os camaradas. Juramento de bandeira. Entrevistam os pais. Um irmão. Depois os amigos. Os soldados que serviram com ele. Ás tantas começa tudo a chorar e percebo que estão a recordar a sua morte. Tinha a minha idade e morreu em 1995. Tudo isto dura uns 15 a 20 minutos.

Sem intervalo, começam a dar a biografia de outro rapaz. Este não é tão franzino como o anterior: tem um aspecto bem mais marcial. Mas os temas são os mesmos.

Já tinha ouvido falar nisto, mas assistir é arrepiante. Que dia para chegar a Israel. Pergunto a uma soldada israelita (bem bonita, por sinal!) o que é aquilo tudo.

E ela explica-me: hoje é o dia em que Israel está a comemorar os soldados caídos em combate. Não só soldados, mas também todas as vítimas da Intifada. A televisão

 

Acordo bem cedo para assistir ao nascer do sol no topo da montanha de Masada. Tenho pela frente uma subida infinitamente íngreme de quase uma hora, às apalpadelas na escuridão do Caminho da Serpente: um trilho com dois mil anos que Flávio Josefo descreve, na sua história da Guerra Judaica, nos piores termos.

Estou a percorrer os mesmos passos que personagens históricas! Há muito que queria vir a Masada: em míudo assisti a uma série fenomenal sobre o cerco efectuado pelos romanos entre o ano 70 e o ano 73. E como o início do período imperial sempre foi um dos meus favoritos, tive a oportunidade de ler sobre o cerco. E agora estou cá!

Aqui travou-se o último episódio da rebelião na Judeia começada no ano 66, e que assistiu a grandes combates, ao cerco e destruição de Jerúsalem. E que, entretanto, cimentou a reputação de Vespasiano como grande comandante e o levou directamente ao trono em Roma. A seguir à queda de Jerusalem, e com o desfecho da guerra completamente decidido, um bando de judeus capturou a fortaleza e ali ficou. Mas tal era a atitude dos romanos, de não deixar nenhuma guerra, nenhum conflito, em dúvida quanto ao seu desfecho, que enviaram uma legião inteira, a 10ª, para o meio do deserto, longe de todo o abastecimento de água, para a capturar.

Quase dois mil anos depois, os vestígios desta acção estão por toda a parte: os acampamentos romanos estão lá, claramente visíveis, tal como a muralha de circunvalação, as balas de catapulta e, o que é mais impressionante, a enorme rampa de assalto através da qual os romanos arrastaram as suas máquinas de guerra para derrubarem a muralha, entrarem na fortaleza e capturarem a posição.

Mas no dia em que finalmente o fizeram, não encontraram oposição: os defensores judeus decidiram tomar conta do assunto por si próprios. Então, em vez de caírem às mãos dos romanos, todos se suicidaram: homens, mulheres e crianças, excepto menos de uma dezena que se conseguiram esconder e explicar depois o que se passou.

E isto é Masada e o seu espírito: é aqui que o exército israelita vem realizar os seus juramentos de bandeira. É aqui também, que os míudos das escolas primárias israelitas – e alguns, mais velhos, de escolas religiosas nos Estados Unidos – vêm em visitas de estudo, da idade que as nossas vão ao Jardim Zoológico ou ao Mosteiro dos Jerónimos, e onde lhes é contada a história dos defensores. Para que a entranhem, desde pequenos…

Vejo-os ao meu lado, na subida. As “Rachel”, “Miriam”, “Hannah” e outros nomes bíblicos fazem corrida comigo na escuridão, para, ao chegarem lá acima, depois de uma alvorada comovente, com o sol a reflectir-se sobre o Mar Morto, puxarem dos seus livros de orações, sussurarem-nas e agitarem-se daquele modo que a mim me causa sempre tanta estranheza…

Este país desafia-me como nenhum outro onde até agora já estive!

Entretanto, lembro-me da conversa que tive com o taxista que me levou da fronteira até Eilat. Esteve no exército? – perguntei-lhe eu para direccionar a conversa para aí: “Of course!” Fico a saber que pertence àquela geração que travou as batalhas que estabeleceram a reputação e a grandeza do exército israelita: é um veterano da guerra dos Seis Dias, de Yom Kippur, do Líbano. Os seus olhos brilham de um modo estranho ao contar-me o avanço da sua unidade através do Sinai e do Egipto.

No final da nossa conversa, pergunto-lhe o que acha da situação hoje em dia. As coisas com os muçulmanos estão melhores? “Os muçulmanos são um perigo! Repare, eles já perceberam que contra nós não conseguem fazer nada. Não conseguem passar por Israel! Então agora estão a tentar conquistar a Europa. Eles são muito espertos! Já há 12 milhões de muçulmanos em França… e em Inglaterra são 3 ou 4 milhões…”

Ah, está bem!…